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A creche: a ampliação do mundo para os bebês e a retomada do mundo para os pais

Set 2026 Isabel Valli

Muitos pais sentem-se inseguros quando decidem ou precisam colocar seus filhos na creche, principalmente quando estes ainda são bebês. Com menos de 2 anos, sabemos e vemos o quanto os bebês ainda precisam dos principais cuidadores por perto. Entretanto, será que esta na verdade não pode ser uma experiência muito engrandecedora para todos?

Sabemos que sim, muito possivelmente haverá uma difícil fase de adaptação e quanto mais isso puder ser vivido por todos gradualmente, melhor e mais saudável será, principalmente para a mãe (ou figura principal de cuidado) e para o bebê. No geral as creches se preparam para estar mais disponíveis durante uma semana com esse bebê. Há uma progressão do tempo que o bebê fica na creche: primeiro dia permanece na creche por uma hora com os pais, segundo dia, duas horas, podendo já experimentar estar sem a figura de apego por algum tempo, terceiro dia, três horas e assim progressivamente até ficar o tempo inteiro que é contratado. A creche avalia as necessidades, de preferência, junto com os pais, para construção de uma confiança.

Cada criança é um ser único, portanto, a forma como cada uma vai se comportar vai ser também muito única. Entretanto, vemos que a grande maioria dos bebês sente bastante nessa primeira semana e inevitavelmente vem o choro, o que pode gerar um sentimento de culpa por parte dos responsáveis, inseguranças emergem e até questionamentos sobre a decisão tomada. É preciso calma, pois isso faz parte! A principal figura de apego do bebê, como a mãe, sente-se frequentemente assim pois não tolera ver seu filho "sofrer" e ainda está bastante "colada" a ele, isto é: ainda há pouco distanciamento emocional entre os dois, ainda formam uma dupla "mãe-bebê". Então o que um sente, o outro também sente. Minha orientação para os adultos é: deixe o sentimento aparecer, olhe para ele e aos poucos tente elaborar. É provável que com a ajuda de alguém nessa elaboração, fique mais fácil, pois vendo de fora essa pessoa poderá te acalmar, pois vê as coisas de forma mais distanciada e com isso, te ajuda a passar por esse processo, tão singular e sensível.

Conforme os dias passam, o bebê vai se ambientando e sentindo a creche como um lugar mais conhecido. As figuras de cuidado se tornam aos poucos mais familiares e ele poderá sentir mais confiança no cuidado recebido nesse novo espaço. Com isso, os pais tendem a se acalmar e também confiar que os filhos estão sim sendo bem cuidados por outras pessoas.

Para ajudar no processo de confiança e tomada de consciência do processo que estão vivendo, enumerei a seguir alguns pontos relevantes que percebo com a entrada dos pequenos na creche:

  1. Construção de confiança no mundo além da mãe: o mundo restrito da casa ou o colo dos pais, pode se alargar. Aos poucos, o bebê aprende que existem outros adultos confiáveis. Isso não enfraquece o vínculo primário, na verdade, um vínculo seguro em casa é o que permite essa abertura. O bebê agora poderá contar com outros colos e cuidadores e isso é positivo quando o bebê já está em determinada fase do desenvolvimento. Muitas vezes, alguns bebês elegem uma figura de referência também na creche, aquela pessoa a quem ele vai recorrer primeiro quando precisar. No início principalmente, é comum observarmos esse comportamento e muitas creches já dispõem de cuidadores que podem estar mais perto daquele bebê por este momento de adaptação, pois isso facilita o processo. Depois ele irá, aos poucos, ampliando ainda mais esses círculos de cuidado com os outros cuidadores da creche e vai começar a entender que todos adultos ali são seu amparo.

  2. Ampliação das relações com os pares: O contato com outras crianças e adultos além da família nuclear permite as primeiras experiências de convivência social e tudo que nela comporta: a espera da vez, negociação de brinquedos, mesmo que de forma ainda bem primitiva quando estamos falando de bebês. As disputas de brinquedos, tão comuns, são importantes ao desenvolvimento, pois a mediação de adultos que estão ali disponíveis para isso permite que essa situação seja cuidada sem moralismos, mas entendendo que isso é parte do desenvolvimento infantil. Trata-se de um ser que começa a entender sobre si, sobre o outro e os limites dessas interações.

  3. Rotina e previsibilidade: Horários regulares de sono, alimentação e atividades ajudam o bebê a se organizar internamente. A rotina que era apenas feita em casa, agora precisará ser outra com a entrada na creche. Isso pode levar um tempo e os ajustes e adaptações podem ser feitos a partir da comunicação entre os pais e a creche: a que horas acordou? Comeu bem? etc. Às vezes, um comportamento mais irritadiço ou choro, pode ser bem manejado quando sabemos a respeito dessas necessidades básicas. Além disso, a creche estabelece tempos de brincadeiras, passeios etc que ajudam a criança a se organizar ao longo do dia e, por exemplo, a gastar a energia necessária para um bom sono noturno.

  4. Diversidade de estímulos e experiências: Materiais, brincadeiras e espaços diferentes de casa. A creche também é lugar onde os pequenos vão encontrar novos materiais como: brinquedos, tintas, papéis e atividades diversas. Em geral é difícil dispor de materiais e atividades diversas em casa, mas que nas creches são ofertados diariamente, o que possibilita o despertar da criatividade, o desenvolvimento em nível cognitivo, sensório e motor aos bebês. Sabemos que os bebês são exímios pesquisadores, mexem em tudo, querem descobrir a respeito do funcionamento das coisas, colocar na boca, sentir e descobrir, nada melhor que um bom espaço preparado para essas pesquisas!

  5. Observação e acompanhamento do desenvolvimento: Educadores atentos podem identificar precocemente questões do desenvolvimento, comunicação ou comportamento. Aliada aos pais, a creche é um segundo olhar para os bebês e crianças. O olhar especializado para o desenvolvimento do bebê ajuda os pais a identificar aprendizagens, o que auxilia no dia a dia em casa, como por exemplo a aquisição de um novo gesto ou palavra que comunica alguma necessidade: pedir água, comida, manifestar sono etc. Um novo gosto adquirido, uma preferência de comida, uma brincadeira etc. são de grande valia ao longo do crescimento. Além disso, alguma questão que merece mais atenção, como atrasos no desenvolvimento ou comportamento que aponta para alguma necessidade de cuidado especial, com frequência é identificada por profissionais das creches que comunicam a observação aos pais.

  6. Espaço para o desenvolvimento da autonomia gradual: Pequenas conquistas cotidianas como comer sozinho, subir e descer de lugares, começar a calçar sapatos, fazer xixi no penico, comunicar suas necessidades a diferentes pessoas são importantes conquistas que o bebê ou criança pequena adquire com mais facilidade na creche, pois, ao contrário do ambiente da casa, onde geralmente a relação é mais de um para um, na creche, a antecipação das necessidades pode ser menos frequente. Além disso, o aprendizado por observação e imitação é algo especialmente facilitado nesses ambientes onde há os pares.

  7. Tolerância à frustração: Claro que, pensando em bebês não tão pequenos, falar sobre a frustração pode ser um elemento positivo no desenvolvimento. Quando o bebê é muito pequeno, frustrá-lo não é saudável, ao contrário, pode produzir adoecimento. Mas se estamos diante de um bebê que já consegue tolerar algumas "falhas do ambiente" (exemplo: uma mamadeira ou um seio que demora um pouco mais para chegar, etc), isso pode ser de grande valia. Dividir a atenção dos cuidadores com outras crianças ou atividades, em doses adequadas, pode fortalecer emocionalmente esse bebê.

  8. Mudança positiva na relação com os pais: A partir do momento em que os pais podem ter mais tempo para si mesmos e para as atividades que são de sua responsabilidade, além dos cuidados com os filhos, como o trabalho doméstico e o trabalho formal, o tempo com os filhos se expande, pois tendem a ficar menos tensos e ansiosos com as outras tantas demandas que os esperam. Também vemos melhoras nos casamentos, pois ambos cuidadores ficam mais relaxados no sentido de poder contar com outros cuidadores e um espaço profissional para os filhos, podendo a partir daí olhar agora um pouco mais para o casal. O descanso físico dos pais neste processo conta muito para uma melhora nas relações, pois estes tendem a estar mais presentes emocionalmente no tempo com os filhos e também entre si.

Sinais que podemos observar ao longo de um processo de adaptação vão desde a diminuição do choro até a possibilidade de comer e dormir bem na creche. Não espere necessariamente que a despedida seja sempre fácil e que seu filho dê tchau e siga tranquilamente para dentro da sala. Se isso não acontece, não é necessariamente sinal de que ele não está bem ali, mas uma demonstração, por exemplo, do afeto entre vocês e como ainda é difícil pra ele se distanciar. Converse sempre com os responsáveis da creche para saber como seu filho está durante o dia e assim, poderá ter informações mais precisas e adequadas sobre a adaptação do seu filho. Além disso, mesmo que seu filho seja muito pequeno, um bebê de 5 ou 6 meses, também é de grande valia fazer pequenas conversas, antes e depois de deixá-lo na creche. Explique, em poucas palavras, o que vai acontecer e, depois, o que aconteceu: "você vai e você volta". Manifeste com afeto e use as palavras, mostre seu amor na hora de buscá-lo e aproveite as conquistas que você verá aparecer neste ser que cresce!

Por fim, gostaria de lembrar que a escola ou a creche é apenas um lugar onde bebês e crianças podem viver outras experiências e que pode ser muito benéfico para eles e suas famílias. O ambiente familiar tem sua função demarcada e limitada, assim como a creche e, juntos, proporcionam uma rede de cuidados mais forte às crianças.

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