Por que as crianças brincam? E qual a importância disso?
"A brincadeira é a prova evidente e constante da capacidade criadora, que quer dizer vivência."
p. 163
Falar sobre a brincadeira na infância sempre me parece pertinente, sobretudo em tempos em que, cada dia mais cedo, as telas dominam a cena. Você já parou para pensar sobre a importância da brincadeira na infância? Lembra como era na sua época? Como você se relacionava com a brincadeira? Do que mais gostava, onde brincava, com quem e como construía seu mundo imaginativo?
Partir dessas memórias me parece interessante para mobilizar os afetos daqueles que são responsáveis pelo lugar que a brincadeira pode e deve ocupar na vida das crianças. Não falarei sobre os inúmeros malefícios das telas, pois já foram bastante discutidos. Vou trazer, a partir de um texto de D. W. Winnicott, elementos para tomada de consciência da complexidade do que é o brincar infantil, sua importância e significado para vida de um ser humano que amadurece emocionalmente, cresce biologicamente e conquista um corpo no mundo e nas relações sociais. Quero destacar o brincar como o lugar onde é possível viver de modo verdadeiro e criativo, e isso significa poder integrar o mundo interno e o mundo externo.
Desde muito pequenos, os bebês estão em contato com os mais variados objetos: o próprio cuidador, com seu corpo, seio, colo, rosto, mãos e voz, e também os objetos do mundo ao redor, como panelas, potes, tampas, luzes e bichos. Eles são seres curiosos e fazem um trabalho diário de observação, memorização, exploração sensorial, uso e criação de relações com os objetos. É a partir dessa exploração que, mais tarde, o brincar ganha a forma que conhecemos.
De forma mais evidente, é por volta dos 2 ou 3 anos de idade que o mundo da fantasia entra em cena e as crianças começam a criar histórias, contextos, diálogos, situações das mais diversas. O que estão fazendo aqui? Estão elaborando a vida, as experiências vivenciadas, mas, muitas vezes, não elaboradas. Uma ida ao médico não muito agradável, uma internação, uma ausência prolongada dos cuidadores, uma situação de conflito entre os amigos, uma mudança que a criança não compreendeu etc. Tudo isso pode aparecer como elementos no brincar que permite à criança compreender melhor uma experiência, favorecendo a integração do que viveu.
As brincadeiras são também, por si mesmas, prazerosas para as crianças, mas não somente porque comportam um grau de divertimento, mas porque dão lugar a esta elaboração do que ficou retido como angústia, ansiedade e sentimentos agressivos. Poder ser agressivo em situações da vida não é simples, nem para a criança e nem para os adultos que cuidam dela. Por isso, muitas vezes, é por meio do brincar que a criança pode viver esse sentimento. Daí a importância de aceitar que a agressividade apareça nas brincadeiras, sem moralização. Winnicott (1942) fala sobre a angústia no brincar:
"A angústia é sempre um fator na brincadeira infantil e, frequentemente, um fator dominante. A ameaça de um excesso de angústia conduz à brincadeira compulsiva, ou à brincadeira repetida, ou a uma busca exagerada dos prazeres que pertencem à brincadeira."
p. 161
Podemos notar com muita facilidade que a brincadeira tem bastante significado para uma criança, quando é difícil que ela pare a brincadeira e vá fazer algo que demandamos, como escovar os dentes, comer etc. Há nesse ato algo de muito profundo, subjetivo e um espaço de organização dos afetos. A brincadeira funciona como um elo entre o mundo interno da criança e a realidade compartilhada. "A brincadeira fornece uma organização para a iniciação de relações emocionais e assim propicia o desenvolvimento de contatos sociais." (D. W. Winnicott, 1942, p. 163)
Da mesma forma que adquirimos experiência ao trabalhar e fazemos amigos e inimigos no ambiente de trabalho, a criança ganha experiência de vida ao brincar. Abre-se para a possibilidade de fazer amigos e viver conflitos. É sozinha, depois com alguém mais próximo e posteriormente com amigos, que a criança pode enriquecer seu mundo brincando.
Ao brincar com outras pessoas, a criança precisa se comunicar com o outro e negociar os desejos de cada um. Há aí uma grande possibilidade de expansão da capacidade emocional e relacional. De modo geral, os adultos podem ajudar com o ensino de brincadeiras tradicionais, porém o mais importante será a iniciativa própria das crianças.
Por fim, quando uma criança não quiser parar uma brincadeira, lembre-se quanta coisa ela está vivenciando nesse ato, quanta mobilização afetiva, corporal e social existe ali. Fazer negociações e fornecer avisos antecipados sobre alguma próxima tarefa ou demanda pode ser bastante importante. Quando uma criança diz "só mais um pouquinho", muitas vezes ela está dizendo: "ainda não terminei de viver isso".
Em tempos de telas cada vez mais presentes, proteger o tempo e o espaço do brincar livre é uma forma de cuidado. Brincar é uma das formas mais importantes do viver na infância.
Referência: D. W. Winnicott (1942), A criança e seu mundo. Capítulo: "Por que as crianças brincam?"