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A importância de dizer "não" a bebês e crianças

A base do "não" é um grande "sim".

Set 2026 Isabel Valli

Na vida cotidiana com um bebê ou criança pequena, é muito fácil se deparar com a necessidade de dizer "não" — seja para protegê-lo de algum perigo, seja para que não estrague alguma coisa ou não se comporte de um modo socialmente indesejado.

Mas qual é a real importância desta palavra? Por que dizemos tantos "nãos" e como isso é benéfico ao desenvolvimento dos bebês e crianças?

No livro Conversando com os pais, de D. W. Winnicott, em entrevistas radiofônicas, o autor analisa a conversa de mães que relatam entre si situações em que precisam dizer "não" aos seus filhos. Um dos relatos em especial revela uma grande sabedoria aprendida. Uma mãe diz:

"Essa foi uma boa lição que aprendi. Quer dizer, se você deixa a criança fazer algo quando isso não vai ser um aborrecimento muito grande para você, então ela não o fará quando se lhe explica haver uma razão para que não o faça desta vez." (p.29)

E ainda:

"Acho que tudo depende de você não ter um número excessivo de coisas a cujo respeito tenha de dizer 'não'. Quer dizer, quando o nosso primeiro bebê era muito pequeno, havia duas coisas a que dizíamos 'não'." (p.30)

Vemos aí algo muito simples, que possivelmente muitos façam sem nem perceber: ter claro e ser mais assertivo nos "nãos" funciona melhor do que usar a palavra de forma geral e irrestrita — de modo que a criança já não saberia mais diferenciar o que realmente pode do que não pode. A palavra acaba perdendo seu significado e sua eficiência.

Além disso, a mãe de forma muito sensível compreende que, quando o bebê é muito pequeno, o mundo precisa ser mais ou menos do seu tamanho — ou seja, pequeno também. Não podemos apresentar muita complexidade e esperar que o bebê compreenda, pois tudo ainda é rudimentar. É preciso ir do simples ao complexo.

Winnicott destaca também que, a partir dos relatos das mães, é possível perceber que o modo de agir e dizer "não" varia e se ajusta conforme a idade da criança. Uma criança de 1 ano e outra de 2 anos têm capacidades diferentes de compreensão da palavra. Winnicott descreve três etapas do "dizer não", que podem se sobrepor.

Primeira etapa: "não" ao mundo, um grande "sim" ao filho

Aqui, devido à tenra idade, nada tem a ver com palavras, e os cuidadores são absolutamente responsáveis o tempo todo. O bebê ainda é muito pequeno para entender certos barulhos ao redor, ou que o que ele sente é fome e não uma "alcateia de lobos". A mãe ou cuidador(a) principal está tão identificado com o bebê que não falha grosseiramente com ele, atendendo suas necessidades quase que imediatamente.

Assim, no começo, a mãe, e em breve ambos os pais, passam a incumbir-se da tarefa de impedir que coisas inesperadas aconteçam. (…) Durante todo esse tempo os pais estão dizendo 'não', estão dizendo 'não' ao mundo, dizem 'não, não se aproxime, fique fora do nosso círculo'; no nosso círculo está a coisa que é objeto do nosso desvelo e não permitimos que nada ultrapasse essa barreira.

p. 44

Não é verdade que a primeira etapa é em seu todo um grande 'sim'? É 'sim' porque você nunca falta ao bebê, nunca o decepciona. Nunca se equivoca realmente na sua tarefa geral. Isso é um grande e tácito 'sim' e confere uma base sólida para a vida do bebê no mundo.

p. 45

Segunda etapa: dizer "não" ao filho

Em vez de dizer "não" ao mundo, agora se diz "não" ao filho: "você se impõe e impõe a sua visão do mundo à criança" (p. 35). A mãe ou as figuras de referência começam a transmitir "não" ao bebê porque agora há o alvorecer da inteligência e os primórdios da capacidade do bebê para separar o que você consente do que não consente.

Você não está tentando lidar com o certo e errado do ponto de vista moral, está simplesmente levando ao conhecimento do bebê os perigos dos quais o está protegendo. Acho que os 'nãos' maternos se baseiam na ideia de perigos concretos.

p. 34

Terceira etapa: a fase das explicações e da cooperação

Na terceira etapa, já é possível contar com a cooperação da criança quando se explica o motivo do não. Aqui, envolve linguagem: "não porque você vai se machucar", "não porque…". E surge algo bem interessante e, para alguns pais e famílias, desafiador: a criança pode começar a questionar e discordar das explicações.

Elas podem então começar a reunir sabedoria extraída do repertório de nossos conhecimentos; podem aprender o que pensamos que sabemos, e o melhor de tudo é que estão agora muito perto de serem capazes de discordar das razões que damos.

p. 47

A vigilância não é eterna

É preciso reconhecer que essa tarefa cansa quem está na linha de frente, pois é um estado de eterna vigilância e sobreaviso. E por mais que tentemos antecipar os perigos, não dá para pensar em tudo de antemão — mas "é na vivência de momento a momento que todo o trabalho importante é feito" (p. 40). Winnicott nos alivia e traz esperança:

Felizmente, a eterna vigilância não é eterna, ainda que o pareça. Dura apenas por um tempo limitado para cada criança. Logo começa a dar os primeiros passos, já está indo para a escola, e a vigilância passa então a ser dividida com as professoras. Contudo, 'não' continua sendo uma palavra importante no vocabulário dos pais, e proibir continua sendo uma parte do que mães e pais se veem constantemente fazendo até que cada filho, à sua própria maneira, se emancipe do controle parental e estabeleça um modo pessoal de vida e de existência.

p. 42-43

A base do "não" é o "sim"

Por fim, vale relembrar que a base do "não" é o "sim". O sim é a base para o desenvolvimento da criança, que vai poder se arriscar no mundo, explorando suas possibilidades, confiando — mas também sabendo dos perigos que pode encontrar.

Seu mundo em expansão tem uma relação com o crescente número de objetos e espécies de objetos a cujo respeito a mãe pode dizer 'sim'. O desenvolvimento da criança, nesse caso, tem muito mais a ver com o que a mãe permite do que com o que ela proíbe. 'Sim' forma o background ao qual o 'não' é adicionado.

p. 45-46

Há sem dúvida um aspecto muito benéfico do "não" dito aos bebês e crianças: elas ganham chão e firmeza para trilharem seu próprio caminho na vida.

Crianças pequenas gostam que se lhes diga 'não'. Elas não gostam de lidar sempre com coisas amenas e macias; também gostam de pedras, paus e chão duro, e gostam que se lhes diga quando devem cair fora, tanto quanto de serem mimadas. (p.48)

p. 48

Referência: D. W. Winnicott (1896-1971), Conversando com os pais. Capítulo: "Dizer não"

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