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Cuidar de um ser humano: é possível estar preparado para essa tarefa?

Jun 2026 Isabel Valli

Todos os dias vemos bebês e crianças cruzando nossos caminhos pelas ruas. Pais, mães, avós, tios, irmãos, babás, professores se ocupam desses seres todos os dias. Mas o que nós precisamos oferecer exatamente?

A tarefa do cuidar se apresenta nas mais diversas relações: podemos cuidar de amigos, tios podem cuidar de sobrinhos e filhos frequentemente podem e/ou precisar cuidar dos pais, etc. Mas falando especificamente dos seres pequenos que chegam ao mundo, já parou para pensar o que eles necessitam? Que tarefa é essa, a nossa do cuidar, nos primeiros tempos de vida?

Sabemos todos, os mais ou menos envolvidos, que essa tarefa desgasta, cansa e por vezes, esgarça as relações. Pais de primeira viagem se vêem enlouquecidos nas mais variadas e inesgotáveis demandadas de um ser tão pequeno! Acordar de madrugada, amamentar, fazer dormir, afagar o choro, brincar, dar banho, passear, levar e trazer da escola, alimentar, dizer “não”… E quando digo tarefa, é porque isso demanda sim preparação, pensamento, intenção e muita mobilização!

No entanto, é importante lembrar que tudo isso também vem de um lugar mais “intuitivo”, onde não há plano algum. No geral, os cuidadores diários como pais, mães, tios e avós, no geral, não leem livros ou estudam sobre o os bebês quando resolvem ter filhos ou quando ganham sobrinhos. Diria Winnicott: que bom que não! Mas, de repente, lá estão: cuidando de seres que precisam muito de nós, principalmente nos primeiros meses e anos da vida! E as dificuldades, dilemas, perguntas, estresses, necessariamente aparecem! Mas é preciso recuar, respirar e talvez buscar algum tipo de apoio para recuperar a sua trilha do cuidar.

D. W. Winnicott, pediatra e psiquiatra inglês, nos ajudou muito a pensar isso teoricamente, mas também do ponto de vista prático, pois teve ampla experiência com mães e bebês. Durtante seu período de atuação em hospital psiquiátrico, conversou com pais, enfermeiros, assistentes sociais, etc. e algo marcante em sua postura foi que ele nunca quis ensinar às mães, pois sabia que a tarefa de quem cuida de bebês pequenos é de outra ordem. O que ele presou muito era que as mães fossem bem amparadas e fortalecidas na sua capacidade de cuidar, que tivessem condições. Ele tinha clareza que parte do desenvolvimento do ser humano passa por uma hereditariedade, mas também sabia que há uma parcela importante do desenvolvimento que depende do suprimento ambiental satisfatório. Aí sim, os pais são os mais importantes e responsáveis.

A maior parte das coisas que ocorrem no bebê ou criança pequena em desenvolvimento acontecem quer os pais entendam ou não, simplesmente porque a criança possui uma tendência herdada para o desenvolvimento, Ninguém tem de fazer uma criança faminta, irada, feliz, triste, afetuosa, boa ou travessa. Essas coisas simplesmente acontecem.

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Então algo ficou muito claro para ele ao longo do tempo e eu quero trazer aqui: os bebês precisam de pais “suficientemente bons”. Vamos nos deter à palavra “suficitente” – não é nem pouco, nem muito, mas… su-fi-ci-en-te.

Pais suficientemente bons podem ser usados por bebês e crianças pequenas, e suficientemente bons significa você e eu. Para sermos coerentes e, assim, previsíveis para nossos filhos, devemos ser nós mesmos. Se formos nós mesmos, os nossos filhos podem passar a conhecer-nos. Se estivermos representando um papel, seremos certamente descobertos quando nos surpreenderem sem as nossas máscaras.

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Sobre o cuidar suficiente, Winnicott nos faz perceber que o mais proveitoso para os bebês e crianças, é quando os pais não ficam tão preocupados em seguir os passos de algo que aprenderam em livros ou algo que um vizinho disse ser melhor fazer, pois em algum momento esse cuidado vai se mostrar tão falso que fará muito mal ao desenvolvimento da criança e à sua relação com o adulto. A consistência do cuidar, quando o cuidador consegue ser si mesmo, é que trará a segurança e previsibilidade tão importantes nesse momento da vida dos pequenos - também diria dos grandes.

No ato de cuidar, também há algo que vem de um “indisível”, sai do fundo de nós, do lugar de onde vivemos, do cuidado que recebemos. Por vezes, simplesmete repetimos um cuidado recebido. Cuidamos com amor? Cuidamos com dor? Tristeza, agressividade, culpa, distância, técnica? Cabe muita coisa aqui, com várias camadas de histórias pessoais e até transgeracionais.

De todo modo, sempre é a partir de um cuidar real, um cuidar encarnado e pessoal que vai podendo ser usado per bebês e crianças. É nisso que a criança pode confiar e com isso ela poderá contar para sentir-se segura no seu caminho da vida.

No fim, das contas, você também foi bebê e possui lembranças para guiá-la, além de tudo o que pode ter aprendido quando observa e participa nos cuidados dispensados a bebês.

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Referência: D. W. Winnicott (1986-1971), Conversando com os pais. Capítulo: "A construção da confiança"

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